terça-feira, 12 de junho de 2012

Métodos & Técnicas de Ensino


1) Métodos de ensino

A didática é a reflexão sobre a atividade de ensinar. Embora lide também com questões relativas ao aprendizado (ação do aluno), seu foco principal é a ação do professor. Uma das áreas abordadas pela didática engloba as questões de método, metodologia, técnicas e procedimentos de ensino. Segundo Preiswerk, o método e a metodologia devem ser entendidos da seguinte maneira: espaço das inter-relações dentro dos diferentes componentes da educação, e entre eles: estrutura social, atores, finalidades, conteúdos. O método é um conjunto de relações e de interações que define, em última instância, o caráter e a natureza de uma determinada educação. [...] Por metodologia, seguindo o uso mais comum, entendemos o conjunto das técnicas utilizadas durante o processo educacional.”

Pelas definições acima, percebemos que o método se relaciona com o modo pelo qual conduzimos todo o nosso trabalho educacional. Podemos considerar o método, por exemplo, a partir das atividades que o aluno realiza para o aprendizado. Nesse sentido, podemos citar quatro tipos diferentes e complementares de método que podem ser usados nas aulas e demais encontros educacionais cristãos:

1. “Um método dedutivo parte de uma lei ou de um conjunto de conhecimentos estabelecidos pela cultura ou pela ciência e os aplica a casos determinados. Começa com o geral ou universal e chega ao particular.”

Talvez esse seja o método mais comum usado nas escolas dominicais. O ponto de partida é a compreensão de um princípio bíblico, um conceito teológico ou uma doutrina. Depois de apreender o conteúdo, passa-se a discutir sua aplicação.

2. “Um método indutivo procede exatamente ao contrário: parte de casos e situações particulares; compara-os, tenta ordená-los e trata de encontrar uma lei que permita relacioná-los. Vai do particular para o geral.”

Esse método é pouco usado em classes de escola dominical. Em parte porque o uso de materiais curriculares previamente preparados dificulta a sua utilização. Contudo, a razão principal para seu pouco uso, segundo me parece, está no fato de que em nossa tradição protestante temos dificuldade em construir o saber teológico a partir das experiências cotidianas. Quase sempre ficamos na troca de experiências sem reflexão crítica.

3. “Um método interativo (dialético) aproveita os conhecimentos já adquiridos e os reinterpreta a partir de situações novas que se apresentam. Confronta constantemente o particular com o geral.”

Esse método aproveita os aspectos positivos dos dois anteriores. Seria interessante usá-lo com alguma frequência em nossas aulas. Afinal de contas, a maior parte de nossos alunos já conhece parcialmente os temas que estudamos. Assim, é importante que os temas a serem estudados sejam analisados a partir de novas perspectivas e situações.

4. “Um método divergente inventa e cria novos conhecimentos, colocando em relação elementos que pertencem a diferentes campos do saber e cujo encontro pode provocar uma novidade.”

Esse é, talvez, o mais rico e mais difícil método a ser usado. Ele se utiliza de conceitos, saberes, experiências e situações a partir de diferentes campos do saber – sociologia, psicologia, teologia etc. – a fim de construir novos conceitos e possibilidades de compreender e transformar a realidade. Pode ser usado na escola dominical, sobretudo, porque nossos alunos têm formação escolar e experiências de vida diferentes e podem contribuir para a produção de novos conhecimentos bíblico-teológicos.

Para aplicar esses métodos, devemos selecionar as técnicas apropriadas a cada um deles. É comum encontrarmos professores preocupados com as técnicas a serem usadas a fim de que suas aulas sejam interessantes e motivadoras. Entretanto, as técnicas, por si só, não são capazes de resultar em uma boa educação. Analise com atenção o seguinte trecho extraído do livro do Dr. Preiswerk e reflita sobre o seu próprio uso de técnicas de ensino – tanto avaliando o que você já tem feito como propondo novas possibilidades de atuação.

As técnicas em educação, como em qualquer outro campo da vida humana, têm um aspecto instrumental. Todavia, não são neutras e o educador não pode usá-las sem se questionar a respeito dos valores que elas transmitem.

Efetivamente, por trás das técnicas, atrás de determinados procedimentos didáticos, estão presentes, em maior ou menor grau, valores e projetos que podem facilitar ou entorpecer as finalidades propostas – mesmo que não haja uma relação direta entre as finalidades e as técnicas.

Um material didático pode ter uma aparência muito atrativa, utilizar procedimentos criativos e, ao mesmo tempo, estar a serviço de um projeto educacional muito conservador e reprodutor dos valores dominantes. Do contrário, um material pode ter objetivos transformadores da realidade e, mesmo assim, usar técnicas que contradizem as finalidades. De forma mais concreta, uma técnica como a exposição, por exemplo, pode servir tanto a um discurso fechado e impositivo, como à narração de uma parábola que transforma a compreensão que o(a) educando(a) tem de si mesmo(a) ou de Deus.

A pesquisa pode ser uma busca criativa ou uma perda de tempo, quando o(a) educando(a) não sabe o que e nem para que está pesquisando.

Um audiovisual pode ser o meio mais eficaz para transmitir uma verdade fechada e alheia à realidade do educando(a) ou um estímulo criativo para despertar novas dimensões e conhecimentos.” (PREISWERK, Matthias, apud ZABATIERO, 2009)


2) Técnicas de ensino

Após falar brevemente sobre alguns métodos de ensino, enfocaremos algumas técnicas que podem ser aplicadas para que a pedagogia se concretize. […] Ao tratar de técnicas, nós as consideramos caminhos para alcançarmos nossos objetivos. Portanto, não há técnicas infalíveis, universais ou receitas prontas para a aula. Por isso, precisamos preparar bem nossas atividades de ensino – não só os conteúdos a serem discutidos, mas também as técnicas que usaremos. Precisamos caminhar em busca da excelência didática, ou seja, da perfeição no ensino, para que haja aprendizado e edificação na igreja.

Não abordaremos todas as técnicas possíveis. Há excelentes livros sobre o assunto [...]. Apenas destacaremos alguns procedimentos básicos para o trabalho em sala de aula:

1. Preleção. Exposição do tema, pelo preletor, diante de um auditório. É um método bom para quando a classe estiver motivada e o conteúdo for novo. Se, por um lado, a exposição poupa tempo, por outro, dificulta a participação da classe, exigindo muita habilidade do professor para manter o nível de atenção. Ao usá-la, procure sempre preparar perguntas para a classe responder, ou alterne a preleção com pequenos trabalhos em grupo ou outros métodos participativos.

2. Dinâmica de grupo. Há múltiplas formas de trabalho em grupo a serem adotadas em sala de aula. Por exemplo: a discussão do tema por toda a classe em conjunto; a divisão em grupos menores, para estudo, discussão ou reflexão; os grupos compartilhados etc. Seja qual for a dinâmica usada, porém, precisa ser previamente preparada e selecionada, senão pode se tornar meramente um bate-papo nada educacional. Os métodos de grupo possuem a grande vantagem de ampliar a participação da classe e, no contexto da igreja, ajudam a aumentar a comunhão. Possuem, entretanto, também os seus limites. Se a classe não estiver acostumada a trabalhar, o grupo pode ser “grupo”, ou seja, apenas tempo perdido.

Caso você goste de usar métodos de grupo, mantenha-se bem informado sobre eles, sempre buscando adquirir novas experiências e materiais sobre o assunto. Em minha experiência pessoal, os métodos de grupo são úteis quando estão inseridos em uma exposição, ou quando os alunos estão bem motivados para trabalhar por conta própria. São importantes, ainda, no estudo de textos bíblicos – pois ajudam a vislumbrar os diferentes ângulos de um texto, especialmente se for um texto difícil.

3. Dramatização. É a “representação teatralizada de situações reais da vida com o propósito de dar e receber informações, alcançar melhor compreensão das situações e favorecer maior integração do grupo” (NÉRICI, I.G., apud ZABATIERO, 2009). Entre outras vantagens, a dramatização nos ajuda a “entrar” no mundo pessoal do tema a ser estudado e a nos envolvermos concretamente com o tema. Exige, porém, disposição e preparo prévio do grupo – o que também apresenta a vantagem de aumentar a comunhão e a integração da classe. É bem apropriada para lidar com temas existenciais e pessoais, pois ajuda-nos a expressar nossas emoções.

Aprecio bastante as dramatizações. Entretanto, é muito difícil usá-las com adultos, pois costumamos nos sentir mais inibidos. A situação dos jovens é, em geral, diferente, pois eles ainda não se deixaram dominar pela “sisudez” das responsabilidades da vida adulta na sociedade capitalista. Para que a dramatização funcione, precisamos nos abrir para Deus, para o próximo e, especialmente, para nós mesmos. Devemos, ainda, levar em conta que uma dramatização “didática” não deveria tomar mais do que metade do tempo da aula (para preparação e execução).

4. Recursos audiovisuais. Vivemos na era da imagem, e não da palavra. Sem o acompanhamento visual, a palavra falada perde muito de sua eficácia. É fundamental, portanto, que saibamos utilizar os diversos recursos audiovisuais disponíveis a fim de melhorarmos nossa comunicação e nosso ensino. Esses recursos incluem o simples e velho quadro-negro, cartazes, retroprojetor e os mais modernos datashows e outros recursos informático-televisivos.

Sua utilização deverá variar de acordo com as possibilidades da igreja e em conformidade com os objetivos educacionais estabelecidos. Não devemos usar os audiovisuais apenas para deixar a aula mais interessante. Eles devem estar em sintonia com os objetivos da aula e com os momentos da prática educacional cristã.

5. Leitura dirigida. “O método da leitura dirigida consiste em o professor orientar a aprendizagem do aluno por meio da leitura de adequada seleção de textos.” (NÉRICI, I.G., apud ZABATIERO, 2009). O hábito da leitura não é muito desenvolvido em nosso país, e esse é um dos grandes motivos do baixo nível educacional de nossa população. Na igreja, a leitura é fundamental, pois nossa fé se alimenta da palavra de Deus – texto que deve ser constantemente lido e estudado. Os encontros educacionais podem ser um bom instrumento para o aperfeiçoamento da arte da leitura, não só com o uso da Bíblia, mas também de revistas didáticas e livros diversos.

A leitura transcende a simples identificação de palavras e frases, incluindo a compreensão do texto escrito em sua totalidade: ideias, pressupostos, implicações práticas, defeitos etc. A leitura crítica nos ajuda a superar os limites intelectuais, a falta de consciência político-social e a ingenuidade teológica. Crescer na arte de ler é importante para o desenvolvimento espiritual. O apóstolo Paulo jamais deixou o estudo e a leitura, mesmo na prisão (2Tm 4.13), pois sabia da necessidade de continuar crescendo na fé.

Encerrando esta breve discussão sobre métodos de ensino, precisamos lembrar que educadores não são infalíveis. Também somos discípulos de Jesus Cristo, temos nossas angústias e limites, nossos saberes e dúvidas. Existe uma ideia velada, mas difundida, de que professores são infalíveis e sabem tudo. Não podemos passar essa imagem para nossos alunos. A autenticidade e a transparência são fundamentais no trabalho educacional, especialmente no ensino cristão. Sempre que você experimentar alguma dúvida, angústia ou sensação de limite, saiba compartilhar esses sentimentos com sua classe, para que você também seja edificado por seus alunos. Além disso, não há chance de sermos bons professores se não formos bons aprendizes. Valorize a dúvida e a curiosidade: são o ponto de partida para o conhecimento.


(Trecho extraído de ZABATIERO, Júlio. Novos caminhos para a educação cristã. São Paulo: Hagnos, 2009)

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